Artigo escrito por Tristi Pinkston, publicado originalmente na revista Meridian Magazine, 8 de agosto de 2013. Disponível em: https://latterdaysaintmag.com/article-1-13089/
Tradução por Renan Apolônio.
Não leio novelas de terror. Não vejo filmes de terror. Eu não vou para becos assustadores ou casas mal-assombradas. Quer saber porque? Porque eu sou covarde. Isso mesmo, eu sou uma grande covarde [1]. Eu salto com barulhos mesmo sabendo o que os fez, e fico arrepiada com aranhas falsas, mesmo sabendo que são falsas. É assim que eu sou. Mas eu sei isso sobre mim e estou certa em tornar minha covardia pública.
Muitos leitores santos dos últimos dias fogem da leitura de contos de terror porque sentem que o gênero do terror tange poderes sobrenaturais. Eles se preocupam que, ao ler essas histórias, vão estar convidando um espírito das trevas a seus lares. Na verdade, esse é um conceito real, e nós temos sido aconselhados por nossos líderes a evitar certos tipos de mídia. Se você pesquisar por “mídia” no site churchofjesuschrist.org, essa será a primeira declaração que aparecerá:
“Somos afetados por tudo o que lemos, vemos ou ouvimos. Os membros da Igreja são aconselhados a escolher somente entretenimentos e meios de comunicação que sejam inspiradores. Os entretenimentos sadios promovem bons pensamentos e escolhas corretas, permitindo que os participantes se divirtam sem perder o Espírito do Senhor.” https://www.churchofjesuschrist.org/topics/media?lang=por
Por outro lado, algumas das melhores histórias de terror atuais são escritas por autores santos dos últimos dias. E, sabe o que?, eles não são estranhos. Na verdade, eles são umas das melhores pessoas que eu conheço. Isso parecia um pouco fora de lugar para mim: fiéis e ativos santos dos últimos dias escrevendo materiais que me fariam tremer debaixo do cobertor? Como pode ser?
Num esforço por entender melhor, decidi me atrever e perguntar questões difíceis a escritores de terror que também são meus amigos: Jeffrey S. Savage, Michaelbrent Collings, e Andrea Pearson. Eles foram muito abertos comigo sobre seus sentimentos a respeito do gênero de terror e o ponto de vista santo dos últimos dias.
Perguntei a Jeff Savage, autor de Dark Memories [2], “Muitos mórmons igualam histórias de terror a convidar o próprio maligno. Qual sua resposta a isso?”
Jeff respondeu: “Acho que é um pouco como dizer que histórias românticas fazem as pessoas perderem a fé, ou que histórias de mistério encorajam as pessoas a matar. O terror é um gênero, como o mistério, o romance, o suspense, e o religioso. E nesses gêneros há histórias edificantes, e há histórias que convidam um espírito diferente. A questão sobre muitos outros gêneros é que o mal é limitado a um serial killer, um sequestrador, um mal namorado, etc. No terror, o mal pode assumir muitas formas mais. Repito, isso pode ser uma coisa ruim que convida um espírito errado, mas isso também pode ser algo grandemente edificante. Numa novela de mistério, eu posso ter um vilão matando pessoas, mas meu mocinho se limita a um detetive, um policial, ou um herói de qualquer tipo. No terror, o lado do bem pode ser na verdade o poder de Deus porque esse é um dos poucos gêneros que o bem e o mal estão presentes em suas formas mais puras.”
Eu sei que o gênero fantástico é muito popular entre leitores santos dos últimos dias porque é uma representação ficcional da batalha final entre o bem e o mal, mas eu nunca pensei no terror mostrando esses poderes em “suas formas mais puras”, como Jeff colocou. Eu mencionei isso a ele, e ele respondeu: “No terror, nós vemos histórias maravilhosas onde o bem triunfa sobre o mal. Embora haja histórias que terminam com escuridão e amargura, grande parte das histórias de terror são redentoras. Vemos a luz triunfar sobre a escuridão, o bem luta contra o mal e vence. Nós aprendemos que enquanto há coisas ruins por aí afora que são muito poderosas, o bem pode triunfar sobre elas. O mundo está cheio de monstros, e muitos deles andam em duas patas. Mas quando transformamos esses monstros em fantasmas, ou vampiros, ou demônios, ou o que quer que seja, ainda estamos ensinando a mensagem que eles podem ser vencidos pela honra, virtude e amor.”
Olhando por essas lentes, então, é esse o objetivo do gênero terror? Qual é o objetivo e como o autor sabe quando ele foi alcançado? Jeff respondeu: “Acho que o objetivo principal de qualquer romance deve ser entreter o leitor. Se um autor falha em fazer isso, nada mais importa. Segundo, um romance pode ensinar, inspirar, educar ou pôr questões que os leitores devem responder por si mesmos. Não acho que o terror seja diferente nesse sentido. Em qualquer coisa que eu escrevo, quero puxar você para uma ótima história e terminar dando algo para refletir depois que as páginas forem fechadas.”
Isso soa perspicaz e notavelmente não assustador.
Eu propus então outra pergunta: “O que terror, como gênero, provoca em você como algo que você gostaria de escrever?”
Michaelbrent Collings, autor bestseller da Amazon de The Loon [3] e vários outros, respondeu, “Eu comecei a escrever terror porque eu era familiarizado com isso. Meu pai (Dr. Michael R. Collings) foi professor de língua inglesa na Universidade Pepperdine, e um dos primeiros acadêmicos a defender o terror como um gênero literário válido. Ele escreveu dúzias de livros sobre o gênero, então quase toda noite quando eu ia para a cama eu podia ouvir, vindos de seus escritório, sons de datilografia ou gritos enquanto ele escrevia sobre terror ou via um filme de terror. Dito isto, eu fiquei com o terror porque eu encontrei nele o potencial de ser o mais enobrecedor e edificante de todos os gêneros. Eu acredito que o terror é um dos muitos gêneros que possibilitam a posição de que Deus existe, não apenas como uma posição secundária, mas como uma crítica do enredo: se há um demônio possuindo uma criança, somente Deus pode salvar a criança. Se o mal vem atrás de você, então com certeza a esperança que você tem vem de Deus.
Jeff disse: “[O terror] é a liberdade de apresentar o bem e o mal em suas formas mais puras.
Como santos dos últimos dias, acreditamos numa luta diária entre Deus e Satanás. No final, Deus irá vencer, mas não até Satanás causar muito dano. Também acreditamos que todos deverão escolher de que lado estão. Não é permitido ficar em cima do muro. Esses são os tipos de histórias que eu posso contar num romance de terror sem ser enfadonho.”
Andrea Pearson, autora da série Katon University, acrescentou seus pensamentos: “Eu escrevo terror leve que é fortemente influenciado por trabalhos pioneiros de terror escritos por autores no fim do século XIX e início do XX. Eu digo leve porque eu não gosto do terror de tipo homicida ou sanguinário, mas sim das coisas mais psicológicas, ou mais assustadoras. Há elementos do terror em quase todas as séries populares: Crepúsculo, Jogos Vorazes, Percy Jackson, Harry Potter. Eu realmente gosto desses elementos e incorporei eles, especialmente os elementos fantasia/aventura, em minhas próprias séries, Kilenya e Katon University”.
“Eu escrevo terror porque não há muito disso disponível que seja limpo e que não seja cheio de simbolismo, situações, e linguagem grosseiros e rudes. Eu quero produzir um trabalho que meus pais e filhos mais velhos possam gostar, e que ainda possa ser classificado como terror. Minhas histórias de Katon University tem romance e uma garantia de que os personagens principais não irão morrer no fim dos livros.”
Eu decido voltar minha atenção a Jeff por um momento. Perguntei a ele: “Como autor de Dark Memories, o primeiro romance de terror publicado por uma editora de santos dos últimos dias [4], você tem uma perspectiva única sobre como romances de terror tem sido recebidos, ou não recebidos nesse ramo. Pode nos contar um pouco sobre como você chegou a ser publicado nesse mercado e os obstáculos que você teve que superar?”
Jeff respondeu, “Bem, a coisa mais importante sobre escrever e publicar terror para um santo dos últimos dias, é a noção preconcebida de que o terror é mau. Para muitas pessoas, o terror se baseia em profanação, violência gratuita, filmes inadequados, sangue, homicídios e sexo. Eu penso que boa parte disso se deve a que essa a forma mais fácil de escrever um romance de terror é com serial killers empunhando uma motosserra, usando máscaras. Mas isso é só um tipo de romance de terror. Dean Koontz é um grande exemplo de escritor nacional de romance de terror que não usa profanação, sexo ou assassinatos.
“Por todas as razões que declarei antes, muitos dos santos dos últimos dias adoram histórias de terror. Mas eles gostariam de poder ler um terror limpo, da mesma forma que gostariam de ler histórias de mistério e romance limpos. Eu tive muita sorte de ter um editor santo dos últimos dias que leu minha história e entendeu que era redentora e limpa ao mesmo tempo que ainda era assustadora. O terror não é para todos os leitores. Eu tive muitas pessoas fazendo más avaliações a meu romance de terror porque era muito assustador. Estou bem com isso, da mesma forma forma que estou bem com pessoas que não gostam de outros gêneros. Mas eu também tenho muitas pessoas me procurando para dizer o quanto gostaram do meu livro e quanto apreciam uma leitura assustadora que é limpa.”
Eu pedi a Andrea que compartilhasse seus pensamentos sobre escrever terror sendo membro da Igreja de Jesus Cristo. Ela disse “Tenho uma visão mista sobre o terror como pessoa santo dos últimos dias. Eu realmente não gosto de filmes e livros que usam o medo para motivar e entreter. Para mim, o medo é o oposto da fé. Se o medo é o motivador, o Espírito não pode estar presente. Portanto, evito muitos dos autores mais populares e filmes que focam apenas no medo, sangue, etc. Aprecio uma história bem escrita que usa o medo psicológico sem focar nele, e que tem uma sensação positiva no final. Muitos de meus leitores apreciam isso em meus livros. E é outra razão pela qual eu nunca vou matar meus personagens principais”
Humm… isso pode ter um pouco de spoiler, mas ainda assim, é bom saber.
Em seguida, perguntei a esses autores: “Alguém já questionou seu sistema de testemunho ou crenças por causa dos romances de terror que você escreveu?”
Jeff disse: “Não. Já tive pessoas que não queriam ler Dark Memories porque não queriam ter medo. Mas qualquer um que leia o livro inteiro sabe que na verdade é a história de um homem que acredita que nunca mais verá sua esposa morta, aprendendo a acreditar em uma vida após a morte. Na verdade, é uma afirmação do meu testemunho.”
Michaelbrent acrescentou: “Há um horror que é pueril e obsceno, existindo apenas para fins de excitar e estimular o desconforto. Mas então, o mesmo poderia ser dito de qualquer gênero: há muitos exemplos de qualquer gênero que servem apenas para puxar a mente para a sarjeta. Por outro lado, quando foi a última vez que o enredo de um romance girou em torno de alguém sendo salvo por um guerreiro angelical? Ou quando na ficção científica você vê profetas - legítimos e não malucos - que estendem as mãos e dão sabedoria que um dia mostrará o caminho da salvação para os personagens do livro?
“Não muito.
“E as respostas do povo santo dos últimos dias têm sido uniformemente maravilhosas. Tenho certeza de que algumas pessoas perguntaram: ‘Por que ele escreve essas coisas horríveis?’, mas nunca na minha cara. As pessoas que me conhecem e sabem o valor que o evangelho tem em minha vida entendem o quanto eu amo o Senhor, e suspeito que presumem que, se estou escrevendo um romance de terror, essa deve ser uma atividade correta. Há muitos membros da Igreja que também amam o terror - meu Bispo atual descobriu o que eu faço e imediatamente perguntou se poderíamos ver um filme de terror em algum momento, já que sua esposa não gostava deles.
Eu dei a ele um dos meus livros, e ele leu em menos de dois dias, e a esposa dele me ligou para se queixar de mim. Não porque o conteúdo fosse questionável, mas porque o livro deu a ele pesadelos e ela acabava ficando acordada porque ele se mexia na cama.
Eu pedi desculpas a ela. E depois dei a ele outro livro quando o encontrei novamente. As pessoas santo dos últimos dias tem muito pouca tolerância com o mal. O que é bom. Mas tem uma grande tolerância com a bondade, e a maioria deles entende que para encontrar a bondade muitas vezes você tem que passar por dificuldades, e que nem todas histórias tem só momentos felizes do começo ao fim.”
Quando eu concluía minhas entrevistas, Jeff acrescentou: “Olha, eu vi muitas pessoas me dizendo que eles não gostam de ler terror. E está tudo bem. Há muitas pessoas que não querem saltar de paraquedas, ou ir numa montanha-russa. E estão totalmente em seu direito. Se você não quer se assustar, não leia livros assustadores. Mas não diga que você não lê terror porque isso é do mal ou veja com maus olhos as pessoas que leem terror, a menos que você tenha lido algo realmente condenável. Eu acredito que um dos maiores erros que as pessoas podem cometer é fazer julgamentos sobre algo do que não sabem nada”
Essa afirmação sintetiza perfeitamente porque eu queria escrever este artigo. Eu sei de tudo sobre o gênero do terror? Não, porque eu nunca li realmente esse gênero. Eu tenho sido muito covarde. Eu vou agora sair corrente e comprar livros de terror? Muito provavelmente, a não-covardia não vai embora da noite para o dia. Mas fico feliz por ter tomado o tempo desses três autores e aprendido sobre um tópico que eu não havia entendido totalmente antes. A forte sensação que tive enquanto conduzia essas entrevistas é que nem tudo é preto e branco como tendemos a pensar. O terror pode ser uma ferramenta útil para mostrar e ensinar o poder do bem sobre o poder do mal e pode ajudar os leitores a entender que a luz sempre triunfa sobre as trevas. De toda sorte, ainda permanece a cautela de que isso não é o objetivo de todos os livros de terror no mercado, e consumidores deveriam usar seu melhor juízo ao escolher seu material de leitura. Esse tipo de cautela é válido para todo tipo de mídia, não apenas para selecionar livros.
“Buscai os melhores livros”, lemos em Doutrina e Convênios 88:118. Que conselho melhor podemos receber que do Senhor?
Notas do tradutor:
[1] A autora usa, no original, a expressão “big, yellow chicken”, “grande e amarela galinha”, em tradução literal.
[2] “Memórias sombrias”, em tradução literal.
[3] “O Mergulhão”, em tradução livre.
[4] O livro em questão foi publicado pela Deseret Book.
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